Não tardam, não falham. Empilham-se em camadas iguais a uma enxaqueca propensa a distender-se sobre as ondas do Golfo de Orosei, obstinadas sem clemência em converter a luz fértil suspensa pelo entardecer numa tela domada por Vermeer. Os trinta e vários Celsius, coagidos a uma certa humildade, anuem sob a gravidade do vapor da chuva e desmontam meio a contragosto. As cores primárias fluidificam-se e no lugar que foi delas um sfumato bucólico. Distante, sobre a linha do horizonte o dia já quase não é. Sabe-lhe bem contra o rosto o roçar de seda das gotas mornas.
Não que não aprecie o sol, Deus piedoso, se aprecia o sol... E o calor. O derreter do suor na pele, o hálito cálido do mar. Ao cabo de meio século enterrada viva em Molde na clausura de um labirinto de fiordes, vir renascer como uma Afrodite na espuma do Mediterrâneo não era destino que de todo enjeitasse. Não enjeitou. Enjeitou sim o pluvial e brumal dos dias nórdicos e outras memórias de colorido idêntico. Porém, deem os dias em querer perder o descaramento e embarcar a temperatura num voo sem preceitos não negará que lhe germina entre veias e brônquios uma sofreguidão pelo lenitivo que unicamente um céu empastado de nuvens propicia, e estas de preferência bem embebidas pela humidade farta da neblina ou senão da chuva nas ocasiões em que a sede se lhe manifesta mais intensa. Fora isso nutre poucos reparos e queixa alguma, saciada e plena com o seu quinhão de falésias e mar sólido e pelo diáfono dos dias entre o Supramonte e o Tirreno.
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Um plano descomplicado, ou menos que isso. Venda-se o exíguo e insípido apartamento, legado de dois anos dilapidados a desembaraçar os novelos de um divórcio tão ou mais insosso que o par de décadas que o precederam, entregue-se a carta de demissão e trinta dias bem contados e a secretária vazia, o computador desligado, as malas num avião, aterre-se sem sobressaltos de reparo na Sardenha e ala para Cala Gonone onde se foi, se não em rigor despucelada pela felicidade em bruto, no esbater dos tempos que os retalhos da memória ataviaram de miragens o que a tanto mais se assemelha.
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Por maior a descomplicação a que almejasse, supracitado plano implicaria todavia a panóplia de contingências várias que demandam de uma conta bancária uma elasticidade em tudo mais compatível com os domínios insondáveis da fé e da metafísica que com a sofreguidão do prosaico e comezinho que é a continuada legião de débitos que lhe exaurem a saúde à cadência rígida do oscilar das ondas. E quando não alicerçado na areia da fé e da metafísica, no pântano da mui esotérica alucinação de uma sequência constante de livros que fluiriam em linha recta do tenaz do seu talento e do indefectível das águas consagradas da fonte da sua criatividade para a cupidez sequiosa das multidões de leitores devotos a haver. Convicção assente na expectativa de que falhando tudo o demais, a fragrância sempre ubíqua da serendipidade eterna jamais cessaria de evolar por perto. Planos, sabe-se, leva-os o vento.
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Caras as casas em Dorgali, mais ainda as que adquiridas são num impulso. E as exíguas migalhas que sobejam depois, a provarem-se insuficientes para alimentar o caleidoscópio farto de canalizadores, pedreiros, electricistas, vidraceiros, azulejistas a que some-se a panóplia completa de todos os outros istas e artistas que lhe desaguam à porta em goteira atraídos pelas olência das feromonas daqueles euros com um leve travo a krone.
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Fenómeno, pois, de causar parca estranheza que por alturas do acidente tal magia pródiga há muito se tivesse já evaporado. Com o correr dorido dos meses e com a benção do espírito santo e dos fisioterapeutas as pernas lá se foram convencendo a aprender a andar de novo por si próprias, já o gáudio com que aterrou em Cagliari quando a realidade ainda era em aguarelas, esse não sobreviveu dez minutos aos destroços. Nem as costas se lhe conformaram com as consequências do impacto da carne nua de encontro a um muro de pedra nodosa e que, até ao presente dia, insistem em lastimar-se com ruído. Consequência de tal, o Panda bucólico que a rebocava ufana para todo o lado convertera-se em menos de um ai numa gaiola aflitiva que as suas mirradas economias anseiam, sem se atreverem, o luxo de substituir.
Mais que tudo o resto, contudo, é a extinção do mar o luto que ela prateia sem remissão. Os dias do nadar infinito ao longo do escorrer das horas sem conta que se lhe transmuta numa reminiscência sombria. O toque sórdido da vida que lhe reconfigura de vez e sem retorno o mar na miragem de Molde, um oceano à distância sarcástica da ponta dos dedos esconjurado à penitência da contemplação.
E tudo somado restavam os livros. Um fabular inane no qual a melancolia do torpor nórdico é fecundada pela efervescência mediterrânica e traz à luz do dia um poliziotto galurês sem tino e sem governo, misto de um Wallander comatoso e um Montalbano decadente (com uns pós de Harry Hole, mais que não seja por uns resquícios de amor à patria): Carlo Varfjell, por conseguinte, à disposição de Vossas Excelências. Indivíduo prenhe de vícios de naturezas várias, núpcias contraídas desde a fundação do mundo com uma Firmina de sua graça, e única, uma colombiana obesa, trombuda e viperina sem graças de maior que lhe sejam reconhecidas, ex-actriz (jura aos incrédulos e a quaisquer outros que lhe deem ouvidos), ciumenta como uma Tosca, virtuosa como uma Jezabel, e pai extremado de uma Nina, ninfomaniaca em itálico e com maiúsculas, um par de olhos melosos e outro de seios de lançar mil navios, cuja exclusiva aptidão que salta à vista consiste numa propensão macabra para desencantar cadáveres entre os lençóis aos primeiros desvelares da aurora.
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Reconheceu-se numa viagem sem retorno ao embater de frente com o frenesim de platitudes em que o abismo da sua criação se emaranhara, sendo que ao despertar de tão ciclópica ressaca dito Frankestein improvisado mostrava ter lançado já fundas raízes daninhas, nutria-se de ar e provava ter em tudo uma vida autónoma à qual por mais que se esgadanhasse não divisava porque ponta lhe colocar um ponto final. A escrita certificadamente caótica, os enredos, redigidos num inglês abastardado, entrelaçado com trechos espúrios de norueguês, italiano e sardu, metamorfoseados, lá sabe Deus como, numa versão final depurada em sessões de Google Translate até ao raiar estrumunhado da alva. Tudo isto arquitectado sobre uma estrutura gramatical insalubre e numa predilecção por flashbacks, narrativas não-lineares e todo um sortido de rodriguinhos, floreados, rococós e pedantismos diversos como se não existisse amanhã. Os riscos muitos, o sucesso menos.
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Não que o revés fosse de lhe causar mossa que se visse. Jamais o silêncio dos editores foi lido como fenómeno distinto do da cegueira colectiva. Em boa verdade nem se fez necessário ver passar muitos anos antes que se sentisse confiante qb para se aventurar a traduzir para italiano os seus romances (mesmo que salpicados por um sardu aleatório, sendo que a diferença é para todos os efeitos mistério que a elude). Se está ainda por nascer criatura que se entusiasme com a sua lírica é cogitação que com rara assiduidade lhe assoma ao espírito. Entre livro e leitor a relação, à escassez de mais correcto diagnóstico, é quando muito tangencial, e o defeito, a existir, nunca no primeiro. Agora que é ritual estabelecido em Gonone, ao dobrar dos sinos do Verão, é. Religiosamente, ao virar do calendário desde o minuto em que se instala a época alta, o mais fresco folhetim do Comissario Varfjell, impresso ainda em tinta húmida na HP dos idos da Torre de Babel e fotocopiado por dúzia e meia de esmolas em Orosei, é mais ubíquo à sombra mansa dos pinheiros nas mesas das esplanadas da Lungomare Palmasera que Culurgiones al Pomodoro.
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Por razões que a razão tem dificuldade em descortinar, nos anos mais recentes, diz-se, a versão italiana aparenta ser mais popular que a inglesa. Pois que seja. Amanhã, se esta gaze de chuva se desfizer, distribuirá a edição do corrente ano. De momento a água escorre-lhe pelo rosto e o vestido cola-se-lhe à pele. Por uns minutos o corpo quase não manifesta sequer indícios de dor. Se não é isto ser-se feliz que venha e lho explique alguém que julgue saber melhor.

