Caprera.xlsx
Sair sem saldar a conta estava tão distante das suas cogitações. Desceu guiada por esse propósito, o corpo a reboque do maquinal dos passos os quais a depositaram à porta da recepção. Porém aí chegada sobressaltou-se a tempo porque, não sendo ocasião para confabulações, a funcionária do outro lado do balcão, vezada na prática, era visão de mau prenúncio. Contava encontrar a outra, a trombuda de metro e oitenta, apática como um charco, que se expressava nuns monossílabos de entoação cirílica e que somente nos dias santos se dignava descolar do écran a languidez dos olhos. Gelo e fogo. Porventura devido ao avançado da noite saiu-lhe o fogo, razões e porquês não chegaria a esclarecê-los. Reconfigura e dirige-se para o carro, as malas não pesam nem implicam um retorno ao quarto. No porta-bagagens entram ditas malas que se encolhem bem-mandadas, lado a lado, e sai o saco de plástico do Dettorimarket (Il tuo supermercato sardo) que contém as garrafas e a lanterna. De seguida, da carteira saem o iPad e o telemóvel. E das traseiras do B&B, para onde se encaminha de seguida, sai por fim a bicicleta.
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Com a trajectória interiorizada pela prática, sentia-se mais que confiante de que, se necessário se fizesse, saberia pedalar o caminho inteiro de olhos fechados. Isto a ater-se a viagem fiel ao esboço original, sem assomos de distracções de iniciativa própria. Não exactamente o paradigma da criatura de nervos ambientados a caprichos e contingências. Mas fora a exasperação que as garrafas causam no cesto da bicicleta, num tango lá muito delas ao compasso do piso irregular e num tilintar incessante de testar a paciência ao Job e a ela, tudo conforme. O esguicho de luz que o farol projecta, sem que seja de causar assombro é apesar de tudo o bastante para que, por entre as rajadas de vento e a muita chuva, vá dando conta do recado. Já a distância soa-lhe maior, o esforço dos pneus na lama mais penoso, o sangue mais acelerado.
Depois a etapa da rochas e dos penedos. Bicicleta abandonada, sucede-se o calvário de prosseguir aos tropeções por um carreiro camuflado de mato e calhaus por entre um labirinto de rochedos ocultos sob uma escuridão de mau tempo e lua nova impassível ao desespero da lanterna. A cada passo o prenúncio da queda anunciada e incrementos de cepticismo quanto às chances de lograr alcançar a areia com a garrafa intacta. Motivo pelo qual a ideia de existir uma sobressalente junto à bicicleta lhe proporcionar algum consolo, embora menos o pensamento de se ver forçada trilhar o percurso completo de regresso e recomeçar de novo da casa de partida idêntica marcha de suplício. O que para todos os efeitos acaba por não se revelar necessário sendo que por uma vez os céus se manifestam piedosos. E então sim, a areia sob os pés, encharcada pela maré baixa e por toda a chuva que Deus a dá. Sentada, ensopada, de lanterna mortiça resignada aos elementos. Alguns goles de vodka que lhe laceram a boca mais a faringe e a laringe e o caminho inteiro até à alma. Não era com frequência que alguém comentava vê-la tocar em álcool, menos ainda em bebidas que se aventuram para lá dos quinze graus. Talvez fosse a marca que tivesse sido mal escolhida, sabia lá ela de vodkas. E por carência de mais aprazível companhia, outro par de goles condoídos.
Não tarda. Meia dúzia de emails e três SMS. Os pauzinhos da cobertura de rede abscônditos desde o hotel, mas as mensagens que são astutas nem por isso deixariam de saber dar com o seu destino. E as linhas que não planeara escrever mas que, nécessité oblige, adita num PS:
“Acabei por sair do hotel sem pagar a conta. Paga-ma por favor. Os dados do hotel estão no link abaixo. Já me conheces. Simetrias, pontas soltas, essas niquices todas. Com o tempo entender-me-ás, crê-me. Mas numa coisa tinhas razão, Caprera revelou-se muito aquém”.
A chuva descontrola-se nuns achaques diluvianos que tornam quase impossível proteger o iPad com o corta-vento. O vento atiça as ondas que reagem com um rosnar de maus modos. E pese embora em tal vórtex de trevas o espaço ter perdido as coordenadas e a Casa de Garibaldi poder situar-se onde o diabo bem entenda, nem por isso se coíbe de erguer a garrafa para onde supõe que ela se localize:
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“À tua saúde, Anita”.
De regresso ao iPad, muitos beijos, sempre tua. Enviar.
Uma garra de sombras lacera-lhe o rosto em veios. Os fragmentos de sol que se esgueiram à mão duma Anita erguida numa incitação a todas as insurreições, e à dela, espalmada em leque, fustigam-lhe os olhos encolhidos atrás da ilusória protecção das lentes escuras. Mantém-se neste jogo de forças por alguns instantes até a cabeça ceder e direccionar os sentidos noutra direcção. De onde vinha a voz. Uma voz tecida de sons que segundos antes pairavam num limbo de exegese brumosa mas que aos poucos se rearticulavam de maneira a formar palavras e frases límpidas.
“Não sobrava nada. Alma, élan, niente. O fim da linha, da minha linha. Sobrava o precipício. Mesmo hoje, a cada ocasião que aqui retorno e a vejo ali empoleirada, sinto-me como que possuída por esta pulsão de a querer esmagar, pulverizá-la em fragmentos, fundi-la e ver a liga entranhar-se pelas fendas do empedrado”.
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A gravidade da silhueta cai sobre si num recorte de sombra preciso, mas a estátua já não lhe pesa tanto. Corpo e mente redireccionados para a procedência do catálogo de lamúrias:
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“Credo, senhora. Temos tragicomédia hoje? Se não me equivoco muito a criatura não apenas fez de ti uma escritora conceituada como te proporcionou contas bancárias bem sortidas”.
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“Fez-me escrever, não escritora. E sim, estás equivocada. Dinheiro, fama, sanidade vieram mais tarde. Bem mais tarde. E para que tal acontecesse foi crucial erradicar de vez o espectro da coisa. Tens fome? Comemos nalgum lado? Não? Então prefiro andar”.
Andemos pois. Andar que não passa de eufemismo para que fale. Que fale portanto.
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“Era muito jovem, naïve como poucas, mas tinha esta intuição, sexto sentido... Pois, ri-te, chama-lhe o que quiseres. Eu cresci religiosamente convicta de que escreveria um dia acerca dela. Os heróis da infância tendem apropriar-se de nós, a criar tentáculos que ao virar dos anos acabam a por nos estrangular. Não que abundassem neste fim de mundo, mas tínhamo-la a ela. E eu determinada a legar ao mundo a autêntica, a verídica gesta da nossa Anita Garibaldi. Laguna, aqui esquecida neste cu de Santa Catarina, na iminência de se converter num centro de gravidade para o qual confluiriam todos os peregrinos das revoluções a haver”.
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“E mil e quinhentas páginas depois...”
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A emanação a sarcasmo era a de sempre mas vogava também por ali uma fragrância invulgar que já lhe detectara antes. Estados de alma menos compartimentados. Habituara-se à previsibilidade maniqueísta que tipificava a filha, não dar com ela despertava-lhe alguma inquietude.
“Nem mais, mil e quinhentas páginas depois. Três volumes depois nos quais mal se conseguem descortinar trinta páginas de relato factual. Ora aí tens tu a autêntica e verídica gesta que eu me propunha produzir. A bem da verdade não exige que se escrevam muitas páginas para que a constatação de quão fastidiosos os factos tendem a tornar-se nos bata com força. As mais das vezes revelam-se um total e completo empecilho. Doze anos de escrita obsessiva depois e restam-te as sobras de um ser humano de faz-de-conta que dizimou o que quer que tenha feito por crescer ao seu redor, que corroeu tudo em que alguma vez tocou. E se no final sobrevivi foi graças a ter-me revelado demasiado incompetente inclusive para colocar um ponto final à minha existência”.
“Sabes o que mais me ofusca no meio de toda esta saga? Caprera. Donde é que te surgiu tal paranóia pela ilhota? Se as minhas noções de história ainda não andam baralhadas de todo a Anita Garibaldi morreu muito antes de Caprera”.
“Pois não podia andar mais exacta a tua cronologia. Mas o que foi que que eu te disse ainda agora? Verdades, factos, quem é que necessita desses atrasos de vida? Fui incapaz de a deixar ir, de permitir que jazesse em paz como era devido e ela me implorava. Não, levei-a de rojo para Caprera. O terceiro volume foi escrito como se se tratassem das memórias dos anos idílicos, bucólicos, prenhes de todos os devaneios pastoris à la carte do conto de fadas e ninfas que ambos teriam vivido na ilha se os imperativos do destino não tivessem ordenado de forma contrária. Quanto maior a insistência na fábula maior a compulsão que me prendia a Caprera ‒ um local encantador, diga-se, devias conhecer, levas o Vicenzo. Não havia no Universo força capaz de me obrigar a parar de escrever sobre ela, sobre a ilha, as duas converteram-se numa unidade amorfa, descomunal. Do resto sabes tu. Quando concluí a última página daquela ciclópica magnum opus, quando se tornou patente que o último átomo da minha vida se esvaíra de significado, que tinha chutado para um ermo remoto qualquer ser que algum dia expressara mostras de alguma afeição por mim, que a minha filha era naquele momento criada por desconhecidos noutro continente porque eu me deixara viciar por uma estátua, no dia seguinte a intenção era nadar pelo Golfo de Bonifácio afora direita a Roma. Dada a minha proficiência na arte de nadar o risco de sobreviver a duzentos metros era negligenciável, conseguir afogar-me não parecia requerer grande ciência. Escritores é raça propensa ao neurótico e ao teatral, a esperança média de vida neste meu mister é por regra muito modesta. Mas queres o quê? Fiz a minha parte. Se aceitas o meu conselho, entretém-te com os teus algoritmos e com as tuas folhas de cálculo. Menos dados a sobressaltos”.
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“E é portanto chegadas a este ponto que é suposto eu manifestar a minha euforia pela tua falta de habilidade?”
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A condimentar a apóstrofe vem o costumeiro esgar de petulância. E por baixo, meio esquivos, uns arrepios sombrios muito pouco obedientes à aridez patenteada nos lábios e nos olhos.
“Não vinha a despropósito”.
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E retornadas a Caprera:
“Provou não ser o dia destinado para tal desígnio. E era tarde, despontava já uma manhã sublime no horizonte. E para culminar em anticlímax surge-me do nada um tritão magnífico que me resgata da cupidez das ondas”.
“Santíssimo Sacramento. E queixam-se eles que a lírica clássica tem os dias contados. Muita sorte tiveste tu que esse tal indivíduo não tivesse achado que ias ao teu mergulho matinal e não tivesse deixado que fosses sozinha e em paz à tua vidinha”.
“Pondo de lado o facto de que me enfiei no mar vestida até ao pescoço e de eu ser alguém que nada como se se estivesse a afogar mesmo quando a intenção nem sempre é essa, como é que lhe cheirou a esturro, é essa a tua interrogação?”
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“Nunca li o terceiro volume. Não sei se to mencionei alguma vez, nunca me atrevi sequer. A simples ideia provoca-me suores frios”.
Oito segundos e meio gastos estudar a filha com uma dose de circunspecção e fascínio:
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“Nunca me disseste sequer que leste os outros dois. De verdade?”
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“Sim, li, embora não possa confessar que se tenha tratado de uma experiência enriquecedora. Nem sou sequer da opinião de que se trate de uma coisa bem escrita, mas que sei eu de literaturas? Tinha, sei lá, assim uma certa expectativa que me ajudasse a dar algum sentido às tuas escolhas”.
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“E deu?”
“Pouco. Não sei. Era uma miúda. Foi na época de Singapura. Era tudo caótico à minha volta . Se queres que te seja muito honesta não me recordo do que li ou deixei de ler. Apenas que era uma escrita bizarra, críptica e tremendamente enfadonha. Não devo ter lá encontrado o que queria”.
“Que era”.
“Por tudo quanto é mais sagrado, evitemos trilhar pela enésima vez esse caminho. Poupa-me. Que raio é que uma criança com um fardo emaranhado de traumas às costas, a quem não havia dia em que uma criatura caridosa não lhe viesse expressar as condolências por uma mãe tresloucada que desertara da vida terrena num transe quixotesco em busca sabe Deus de que quimera, que raio, pergunto-me eu, é que uma criança nessas circunstâncias há-de querer encontrar?”
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“Não, não vejo que nos possa trazer grande ganho. Além de que não andas longe da verdade no que à qualidade da escrita concerne”.
“Não era de literatura que eu andava à procura. Foi então por isso que usastes um pseudónimo?”
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“Óbvio. Por essa época já eu tinha escrito alguns dos meus melhores livros (ou pelo menos é isso aquilo em que me vou esforçando por acreditar, alguns leitores e editores concordam, valha-me isso). Não me ia arriscar a enxovalhar um nome que me foi muito laborioso construir com uma saga romanesca dessa casta. Por outro lado, a coisa tinha que ser publicada. Era um capítulo em aberto que urgia ser terminado. E foi, pago do meu bolso porque mais ninguém colocaria o pescoço no cepo. Coloquei eu e quase fiquei sem ele”.
“A minha herança, assim, semeada aos quatro ventos”.
“Edição única, limitada, limitadíssima. Três volumes em busca de alguém que os leia da primeira à última página. Ainda ninguém se acusou. Quanto à herança, temo que te chegue”.
“É essa a maldição que eu carrego, não é? Dinheiro. O bom dinheiro que tudo cura. Quando a poeira assenta é aquilo que me sobra. Um pai que me leva a reboque pelos cantos mais bizarros do planeta, que saltita de conselho de administração em conselho de administração para me deixar órfã aos dezassete anos, morto do coração ou da falta dele. Mas no passa nada, sobraram os activos, líquidos, tão líquidos que se pode nadar neles. O meu idolatrado ex-marido, um vulto entre os vultos da fotografia de glamour, mas fraco, pobre alma, incapaz de fotografar sem tocar, um trovador pictórico que não sabe como evadir-se à sua natureza, são sempre as naturezas, não são? Mas queixo-me eu de quê? No seu infinito altruísmo compensou-me em património. Até uma quinta produtora de Chianti me saiu na partilha de bens, uma das melhores do país segundo me dizem, sei lá eu de vinhos. E depois a minha consagrada mãe, qual fénix renascida de uma atabalhoada tentativa de ir conhecer os anjinhos antes do tempo designado, que deu em vender livros que até parece coisa má, aparece-me resolvida a repartir com a filha única sessenta por cento das royalties, que há-de ser preço corrente o câmbio a que se aquire uma consciência apaziguada. E em resumo é isto, não? Ah, não, claro que não. Ficaram por mencionar as minhas folhas de cálculo. Eu, obstinada em provar a mim mesma que isto de se ser enjeitado de pai e mãe nem é maleita de grande monta, nem coisa de deixar úlceras que não sarem, e porque me ficava muito mal nenhum destino dar aos diplomas de uma educação obscenamente cara, por aqui ando, muito alegre e bem contente, em troca de cheques com muitos zeros, a catequizar directores executivos para que aprendam gerir as empresas deles”.
“Não correu mal. Pelo menos...”
“Pelo menos não dei em ser escritora. Era o que ias dizer? Que me mantenha pelo meu universo lógico e analítico. É um mantra novo?”
“Não. Pensava no Vicenzo. Que tem sorte em te ter a ti”.
“Explica-lhe tu isso. Tenho fundamentadas dúvidas de que o consigas convencer”.
Nem convencê-lo nem evitar que um sorriso se lhe escape agora. O que tende a acontecer de cada vez que o neto se interpõem na conversa. Vários anos acumulados desde a última ocasião em que estiveram juntos.
“Por que não o trazes da próxima vez que vieres?”
“O Vicenzo? Deves andar a fumar coisas novas. O puto já me dá trabalho que chegue, a última coisa que me fazia falta era ter-vos aos dois no mesmo continente. Importas-te que encurtemos o passeio? É que agora deu-me a fome. Aguardam-me dois dias de inferno, portanto, se não te importas leva-me a algum lado onde se coma bem”.
“Vais a que horas?”
“O táxi vem-me buscar às dez. O voo de Jaguaruna é à uma. Hei-de aterrar em Congonhas lá por volta da duas e meia. Depois atravessar meia São Paulo até Guarulhos ‒ estou a contar os minutos para o suplício. Apanhar o avião para Linate às dez e meia, onze horas de Atlântico se não inventarem uma greve, às quais se juntarão outras quatro de comboio até Ravenna. Ámen”.
“Anda, vamos comer”.
“Comamos e bebamos...”
